O Calgary BR Tech encerrou setembro com sua sessão mais pessoal até hoje: “Síndrome do Impostor”, apresentada por Fernando Horta na noite de 21 de setembro, no Platform Innovation Centre. Cerca de 25 a 30 pessoas lotaram a sala — o suficiente para tornar a noite, como sempre, uma das maiores rodadas de networking do ano — para uma palestra que trocou slides cheios de teoria por algo mais raro: o inventário honesto de uma pessoa sobre cada momento em que duvidou de si mesma, e o que realmente aconteceu depois.
Uma Palestra Que Nasceu de uma Piada
O tema não veio de um artigo acadêmico — veio de uma conversa. No começo deste ano, quando todo o time do CBRT topou fazer pelo menos uma palestra ao longo do ano, o Anderson pediu para o Fernando pensar num tema. Meio de brincadeira, ele respondeu “síndrome do impostor” — e completou na hora: “não sou bom o suficiente nem para falar sobre isso.” A piada virou a premissa. Foi assim que ele abriu a noite: se você procurar “síndrome do impostor” no dicionário, também não vai achar a foto dele lá, porque ele não é bom o bastante nem para isso.
Desde o primeiro minuto, Fernando deixou claro o que a palestra não seria: nada de psicologia, nada de jargão terapêutico, nada de abraçar a criança interior. Ele não é psicólogo, e repetiu isso mais de uma vez — quem estiver lidando com algo mais sério, procure ajuda profissional. O que ele ofereceu, em vez disso, foi um espelho: a própria história, contada para que cada pessoa na sala pudesse encontrar o seu paralelo nela.
A Voz Que Mente
Fernando usou Among Us para explicar a síndrome do impostor — o jogo em que uma pessoa é secretamente o sabotador enquanto todas as outras só tentam cumprir suas tarefas. Na vida real, ele argumentou, todo mundo na sala está mesmo cumprindo suas tarefas. O único impostor é a voz na sua própria cabeça insistindo o contrário. Quando algo dá certo, essa voz chama de sorte. Quando dá errado, ela chama de prova. Para provar o ponto, ele trouxe a “pesquisa do DataHorta” — e com ela, o trocadilho mais explorado da noite: a fonte da pesquisa eram “as vozes da minha cabeça”. A fonte usada no slide era Comic Sans. E, mais adiante na palestra, a fonte — de alimentação, dessa vez — era uma Corsair 850W. De qualquer fonte que se pegue o dado, o número foi 70%: a fatia de pessoas que convive com essa voz, principalmente na área de tecnologia, graças a uma carreira construída sobre mudança constante — novos frameworks, novas empresas e, para muita gente na sala, um país e uma cultura inteiramente novos para se adaptar.
Quase 30 Anos de “Eu Não Sou Bom o Suficiente”
O núcleo da palestra foi um passeio pela própria linha do tempo de Fernando, história por história, todas seguindo o mesmo padrão: o medo vinha primeiro, o resultado vinha depois.
- 2001, ensino médio: consertando computadores dos vizinhos por uma mixaria e fazendo sites em HTML na era do GeoCities — já trabalhando com tecnologia anos antes de admitir que pertencia a essa área.
- Vestibulares: reprovado no curso de Direito da USP, certo de que “não servia para aquilo” — aprovado em primeiro lugar em outra instituição no semestre seguinte.
- Um primeiro emprego que sumiu: o estágio numa fábrica de papel acabou quando a empresa foi vendida num negócio de US$ 720 milhões, levando junto o plano de carreira que ele tinha construído em cima dele.
- Concursos públicos: reprovado em dois concursos concorridos antes de ser aprovado na UNIFESP — onde construiu uma carreira de 20 anos.
- Uma banda, aos 19 anos: entrou no grupo apesar do medo de ser vaiado no palco, cercado por músicos na própria família (o pai tocou para o governador de Minas Gerais aos 7 anos de idade). Ele tocou mesmo assim — e continuou tocando.
- Um cargo de liderança no Hospital São Paulo: convencido de que “não daria conta” de coordenar um setor complexo. Liderou por anos e, quando a equipe de TI não conseguia acompanhar o que ele precisava, aprendeu a programar sozinho — Google Planilhas, Apps Script e, depois, PHP — uma busca no Stack Overflow de cada vez.
- O salto para o Canadá: vendeu o apartamento e usou as economias para estudar Desenvolvimento de Software no SAIT, certo de que nem sobreviveria ao primeiro semestre. Se formou com GPA 4.0.
- Um estágio na Newton: conseguido, na sua opinião, por causa de uma piada sobre um link quebrado e uma referência a Hunger Games durante duas pizzas divididas entre 220 alunos — não por competência. Quando o estágio terminou e nenhum estagiário foi efetivado, a “voz do impostor” tinha, na sua cabeça, se provado certa de novo.
- A busca por emprego em meio ao pânico da IA: com desenvolvedores sendo demitidos em massa, Fernando criou sua própria ferramenta de currículo com IA — uma que trabalhava a partir de toda a sua trajetória, e não apenas de um trecho de currículo — e a usou para conseguir o emprego atual, numa empresa fantástica, sem fins lucrativos e fora da área de tecnologia, onde hoje faz exatamente o trabalho que um dia achou que não conseguiria fazer: desenvolvedor.
O Padrão
Ao final da linha do tempo, a plateia conseguia enxergar tão claramente quanto o próprio Fernando: vestibular, banda, UNIFESP, hospital, SAIT, busca de emprego — em todas as vezes, o medo apareceu antes, e o resultado veio depois. Nenhuma dessas tarefas “impossíveis” foi sabotada por um impostor de verdade, segundo ele, “porque ele nunca existiu.”
A Plateia Também Fala
Numa experimentação inspirada no Tech Tuesdays — outro encontro de tecnologia que também acontece no Platform —, a palestra parou para que a plateia se virasse para o colega ao lado e compartilhasse, em 30 segundos, a última vez que entregou algo incrível e chamou de sorte na hora. Três voluntários depois compartilharam com a sala inteira. Hudson descreveu como a sensação se intensificou depois de se mudar para o Canadá — o pensamento constante de “e se eu não conseguir pagar as contas, e se eu for demitido mês que vem”, somado à pressão da IA transformando o mercado. Rauan contou sobre aceitar um projeto freelance apesar da voz dizendo que não conseguiria, montando uma landing page, domínio e e-mail profissional para um colega praticamente do zero — e saindo orgulhoso da experiência, mesmo com uma parte dele ainda querendo colocar tudo na conta da sorte.
Desarmando o Impostor
O momento de perguntas trouxe a parte mais prática da noite. Ao responder à pergunta do Anderson sobre aprender violão na adolescência e insistir apesar do som ruim do início, Fernando atribuiu o resultado à persistência, não ao talento — você começa mal, sempre vai ter alguém para dizer que está ruim, e você continua mesmo assim. Questionado se a síndrome do impostor aparece fora do trabalho, ele contou sobre seu aniversário: esperava 10 pessoas, apareceram quase 30, e o primeiro instinto foi creditar à sorte em vez das amizades que ele de fato construiu. Sobre como se manter motivado depois de uma rejeição, ele descreveu o processo como um luto — raiva, negação, tristeza e, por fim, aceitação — seguido de uma avaliação honesta: faltou alguma habilidade, ou foi realmente azar? Corrigir o que dá para corrigir, e seguir em frente.
Ele deixou a plateia com um pequeno kit de ferramentas contra essa voz:
- Fatos, não sentimentos — mantenha um arquivo com elogios, PRs aprovados e conquistas para reler nos dias difíceis.
- Ninguém sabe tudo — pesquisar no Google ou perguntar para o ChatGPT não te torna incompetente.
- Fale em voz alta — conversar com colegas ou mentores revela o quanto de gente sente exatamente a mesma coisa.
- Ressignifique — troque “eu dei sorte” por “eu me preparei e aproveitei a oportunidade”.
- Compare-se com quem você era — não com a versão perfeita e imaginária de todo mundo ao redor.
A frase de encerramento resumiu a noite toda: “Você não está aqui por acidente. Você está aqui porque fez o trabalho.”
Como Nossa Comunidade se Beneficia
Noites como essa são exatamente o motivo de existir do Calgary BR Tech. Obrigado ao Platform Calgary pelo espaço, à NeoOmni por patrocinar como nossa parceira de tecnologia, e ao Social Grid como patrocinador de mídia. Eventos construídos em cima de histórias reais e sem filtro — não só de conhecimento técnico — dão aos profissionais brasileiros em Calgary um espaço para se reconhecerem uns nos outros, trocarem a “voz do impostor” por uma risada em comum, e saírem com um pouco mais de prova de que pertencem exatamente onde estão.
Nosso próximo encontro é em 19 de outubro, de volta ao Platform, com Eduarda Lyra falando sobre transição de carreira — um tema tão relevante quanto este para quem já se perguntou se está no caminho certo. Siga o Calgary BR Tech em cbrt.ca, no Instagram @cbrt, no LinkedIn e no YouTube para ficar por dentro. A gravação do evento está aqui.